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Padrões sociais, machismo e violência contra mulher: uma reflexão

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A construção social do papel de homens e mulheres é muito diferente e isso gera uma série de problemas de relacionamento. O que ele aprendeu para ser homem é diferente do que você aprendeu para ser mulher. Os padrões que constituem a construção do papel de mulheres e homens na sociedade são formas rígidas de pensar o jeito de ser mulher e o jeito de ser homem num determinado tempo histórico e, caso nunca pare para refletir sobre isso, você corre o risco de repetir estes padrões.

A liberdade sexual nos trouxe a possibilidade de uma flexibilidade em relação aos relacionamentos. Hoje, homens e mulheres trocam de parceiros, separam, casam novamente, têm relações abertas e traem, entre tantas outras possibilidades. Mas, em todas estas perspectivas e possibilidades, sempre existe o outro, a relação afetiva é sempre com o outro e em relação a ele, ao outro cabe a lealdade e a verdade. Porém, há casos e casos, momentos e momentos de um relacionamento, histórias de vida, experiências diferenciadas, o que impossibilita o julgamento, o que sei, sempre é de mim, do outro temos apenas a possibilidade de conhecer e avaliar o que ele permite que eu veja.

Nunca me senti feliz com a possibilidade de ter uma vida dupla, mas essa é uma escolha minha, acredito na fidelidade, acho que a fidelidade é como o amor proposto na poesia (Soneto de Fidelidade) de Vinicius de Moraes: infinito enquanto dure… Não algo imposto, é algo que tenho vontade de viver, e pode não ser eterno, posso me envolver ou me interessar por outra pessoa, mas aí entra a ideia da lealdade que vai muito além da fidelidade. Se amo ou amei de fato uma pessoa, respeito é fundamental, se ninguém manda no próprio desejo, se sinto dúvidas em relação ao meu amor pelo outro, a lealdade sempre vem na perspectiva da verdade, infelizmente não deveria ser a regra “o traído ser o último, a saber”.

Mas o fato é que a traição amorosa dói e muito e quem viveu e sobreviveu sabe do que falo… Portanto, apesar de todos os avanços da revolução sexual, a infidelidade ainda é um assunto muito polêmico que divide opiniões e que queiramos ou não é muito diferente para mulheres e homens.

Até hoje, os homens que traem suas mulheres são vistos por muitos como viris, conquistadores, machos e muitas mulheres, ainda, perdoam por medo de ficarem sozinhas… É a máxima do “ruim com ele, pior sem ele”. 

Estas ideias sobre relacionamentos e suas regras estão implícitas na construção do papel social de homens e mulheres. Veja, quando se trata de uma mulher que trai de maneira geral como é chamada? Ainda há muito preconceito em relação à traição da mulher. Na sociedade machista, o homem ter muitas mulheres promove uma valorização de sua masculinidade. Na mesma sociedade, uma mulher ter vários homens promove uma degradação de sua feminilidade, é claro que isso não é a verdade, mas é o que inconscientemente está no imaginário do coletivo social machista.

Tanto que isto pode ser visto claramente no número de mulheres assassinadas por companheiros por traição, suspeita de traição ou rejeição. Na cabeça destes homens, ele trair é ser macho, a mulher trair é ser vagabunda, e uma vergonha para ele ter um relacionamento de compromisso com ela, isso afronta a sua masculinidade. Ele pode, ela não. E nesse caso muitos se acham no direito de “lavar a honra”. Parece antigo, mas é o que rege o comportamento desse homem que se acha no direito de matar. No imaginário social, sua masculinidade é afrontada quando traído ou rejeitado.  

E no caso da mulher traída… É, parece que as coisas não mudaram tanto assim. Às vezes, brinco e falo se a mulher traída também matasse iria diminuir sobremaneira a quantidade de homens no mundo, mas sou contra a violência de gênero. 

A grande questão é que evoluímos, sim, tivemos a revolução sexual, mas tudo isto não conseguiu de fato desconstruir padrões machistas de comportamento. Alguns paradigmas permaneceram e continuam forte em nossa sociedade, causando violência e morte de mulheres vítimas de seus próprios companheiros.  

Ane Barros é mestre em Educação pela Faculdade de Educação da USP, trabalhou com Políticas Públicas de Enfretamento à Violência contra Mulheres e é autora do livro “Não é dando que se recebe: Mulheres, homens e relacionamentos”. Editora Autografia. Organizadora da página no Facebook/MulherquePensa (Mulheres que Pensam).

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