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Professora censurada por opinião política é demitida de escola em Santo André

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Uma professora de História da Escola Liceu Jardim, em Santo André, foi demitida no dia 30 por ter se ausentado de algumas aulas, após crises de choro, devido a pressões e patrulhamento no trabalho por conta das eleições. A instituição diz que o desligamento ocorreu por não concordar com o motivo apresentado por ela e que a decisão da docente, de deixar a aula, foi unilateral.

Juliana de Oliveira Lopes era contratada há três anos pela instituição e lecionava para as turmas de ensino fundamental II e ensino médio. Em entrevista à CUT São Paulo, a professora diz que nunca havia manifestado seu voto nas eleições em sala de aula, mas que, por insistência dos alunos, que desejavam discutir o momento político do país, chegou a dizer que não votaria no agora presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) por não concordar com a política de ataques a indígenas, negros, LGBTs e mulheres.

Desde então, ela passou a ser alvo de manifestações de pais, que foram questionados por seus filhos em casa por conta do voto em Bolsonaro. Ao reclamarem com a direção escolar, eles teriam, inclusive, usado postagens políticas do perfil pessoal do Facebook da professora para sustentarem suas queixas, dizendo que iriam recorrer à Justiça por aliciamento de menores. Após a demissão, os alunos fizeram uma manifestação cobrando posicionamento da direção.

Nesta segunda-feira (6), o Sindicato dos Professores do ABC (Sinpro ABC) irá realizar uma manifestação em frente à escola, a partir das 6h30, pela liberdade de cátedra. A concentração será na Rua Silveiras, 70, na Vila Guiomar, em Santo André. Segundo apurou a reportagem, a escola tem sofrido pressão de alguns pais, que estariam pedindo “a cabeça” de professores que, para eles, estão “doutrinando seus filhos a serem comunistas”. Além disso, exigem que a escola particular adote o projeto Escola Sem Partido, ameaçando cancelar a matrícula dos filhos em caso negativo – a questão financeira teria pesado na decisão do Liceu de demitir a professora.

“Nestes 3 anos que lá fiquei, conseguimos fazer um trabalho de humanização da escola, que era chamada pelos próprios alunos de ‘presídio’. Fizemos um coletivo feminista, promovemos saídas culturais, criamos um espaço de debate (com convidados de fora) chamado ‘Diálogos do Jardim’, no qual era possível debater desde segurança pública a racismo, com todos os alunos do Ensino Médio reunidos. Todavia, isso tudo está ameaçado, pois alguns pais veem isso como doutrinação”, escreveu a professora no Facebook.

Juliana diz que a escola vinha alertando os professores de que alguns pais os monitoravam pelas redes sociais e que, por isso, houve a solicitação de moderação das postagens. Por meio de sua assessoria, o Liceu Jardim informa que o episódio de segunda (29), quando a professora se ausentou, foi apenas mais uma ocorrência relacionada a ela. “Durante os últimos tempos, em diferentes momentos, fizemos orientações sobre algumas de suas posturas contrárias às diretrizes da escola. Diretrizes compromissadas com nossas famílias, como escola privada, para formação de seus filhos. São diretrizes acadêmicas e fundo ético, que acreditamos ser a razão central, pela qual, as famílias nos contratam, entre tantas outras instituições, para atuar na formação dos seus filhos. A escola particular tem exatamente esta função: a de representar à sociedade, o pluralismo de modelos e ideários de ensino.”

A escola também nega que tenha censurado conteúdos postados nas redes sociais de seus funcionários, mas confirma ter sugerido “cautela”. Diz ainda que ao pedir para se ausentar, Juliana não teria conversado com a direção, mas só comunicado. “Na segunda-feira, por exemplo, a professora apenas chamou a secretária do setor para ficar com sua turma, alegando que, em virtude do resultado da eleição, não estava em condição de dar aula, deixando sua classe, sem ao menos manifestar o cuidado de acertar com direção sob cuidados e responsabilidade de quem estariam seus alunos.”

Sobre a reclamação dos pais, a escola diz que tem recebido “ao longo deste último ano, recorrentes queixas de que havia uma explícita ‘doutrinação’ e promoção de ideologias contrárias aos valores da família.”

Em nota, o Sinpro ABC, filiado à CUT, manifesta repúdio à decisão da escola e se coloca à disposição da docente para tomar as devidas providências, de acordo com a lei. “Diante desse grave fato, o Sinpro ABC se solidariza à professora Juliana Lopes e repudia a atuação da Instituição de Ensino e dos pais, que inferiram no direito fundamental da liberdade de expressão, sendo a demissão um desrespeito à Constituição de 1988, à liberdade de cátedra e à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996, que trazem em seu escopo a compreensão de que a educação é dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana”.

Em outro trecho, o sindicato lembra que a escola é um espaço social de convivência democrática, que deve incentivar o questionamento e abrigar diversas formas de pensamento. “Nós professores e professoras, articuladores de uma sociedade pluralizada, não podemos nos calar diante de propostas que destroem a educação e criminalizam docentes, incentivando à sociedade, a prática de perseguição e retaliação dos que transmitem o conhecimento”.

* Por CUT

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