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Mulheres, mudanças e padrões sociais: repensando relacionamentos afetivos

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Ao longo da história, mulheres lutaram por seus direitos e por mais liberdade e igualdade nas relações, houve uma transição entre a opressão do passado e a liberdade que vivemos hoje. Muitas sofreram as influências de uma família rígida e tradicional, defensora da moral e “bons costumes”, e das mudanças e contradições do mundo contemporâneo. Momentos alucinantes na desconstrução de muitos valores até então inabaláveis.

Entretanto, de forma alguma, podemos desconsiderar, e deixar de valorizar, os muitos avanços históricos que as mulheres tiveram no século passado: direito ao voto, divórcio, trabalhar fora, dirigir, relação sexual antes do casamento, participação política e mecanismos de proteção contra todo tipo de violência, entre outras conquistas.

Todas essas mudanças interferiram e muito nas configurações dos relacionamentos afetivos. Do movimento hippie da década de 1960 à chegada da Aids nos anos 1980, muitos paradigmas foram rompidos.

Novos tempos, novos valores e, de maneira geral, o que se expressa nas entrelinhas das relações entre as pessoas é a ideia de curtir ao máximo os prazeres que o sexo proporciona, nada de apego ou vínculos, algumas pessoas querem experimentar de tudo. Não estou aqui para julgar escolhas e o gosto alheio, mas as mudanças de padrões nos relacionamentos não agradam a todas e isto precisa ser considerado. Sem generalizar, mas boa parte das reclamações, das mulheres que estão sozinhas atualmente, é de que homens não querem compromisso ou vínculos, desejam relacionar-se sexualmente e viver o momento, é a tal ideia do crush ou ficante.

Eis o desafio da modernidade: viver e sobreviver às novas configurações afetivas. Como diz Bauman, sociólogo polonês autor do livro “Amor Líquido”, na modernidade vivemos a crise da segurança e liberdade, daí nossa dificuldade em criar laços afetivos, pois queremos tudo ao mesmo tempo à segurança e à liberdade. O desafio, então, seria a busca do equilíbrio. Mulheres e homens têm essas duas necessidades, mas a convivência com o outro nos impõe níveis de liberdade, que estão relacionados a nossas escolhas e valores e às negociações necessárias para manter a segurança de vivenciar um relacionamento afetivo.

A construção do papel social de homens e mulheres é muito diferente e pautada em padrões machistas. Isso gera uma série de problemas de relacionamento. O que ele aprendeu para ser homem é diferente do que você aprendeu para ser mulher. Os padrões, que constituem a construção social do papel de ambos, são formas rígidas e únicas de pensar o jeito de ser homem e o de ser mulher. E, caso não faça essa reflexão, corre o risco de reproduzir esses padrões.

Independentemente da apologia da liberdade a todo e qualquer custo, ainda está cheio de homens e mulheres casados, às vezes, apenas para manterem as aparências, às vezes felizes, outras infelizes, às vezes em situações que traem um ao outro. Mas devo fazer uma ressalva no quesito infidelidade no que se refere ao gênero feminino. Apesar de a mulher também adquirir o direito à traição, a sociedade de maneira geral analisa e julga isso de forma bem diferente da masculina.

Assim, aparentemente, os direitos são iguais nos relacionamentos afetivos, inclusive em relação à traição – apesar do tabu ainda estar presente ao tema. Entretanto, mulheres continuam sendo assassinadas por homens que traem, mas não aceitam ser traídos, isso sem falar das diversas outras formas de violências que afetam as mulheres em seus relacionamentos com o sexo oposto. O machismo sobreviveu e continua a produzir suas vítimas. Será que as coisas mudaram tanto assim?

* Por Ane Barros – Mestre em Educação pela FEUSP, autora do livro “Não é dando que se recebe – Mulheres, homens e relacionamentos: Em busca de si mesma”, à venda na Bienal 2018 de São Paulo até o dia 12 de agosto, no estande da Editora Autografia, e também pelos sites das lojas Americanas, Saraiva, Cultura e Amazon. Página da autora no Facebook: @mulherquepensa.

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