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Ignorar o passado é característica do fim do século XX

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Era 28 de junho de 1914 quando o jovem Gavrilo Princip, membro da organização nacionalista da Sérvia denominada Mão Negra assassinou o arquiduque Francisco Ferdinando, do Império Austro-Húngaro. O fato serviu como um estopim para o início da Grande Guerra Mundial (1914-1918 / 1939-1945). Noutro 28 de junho, mas de 1992, em Saravejo, capital da Bósnia, data do desembarque do presidente francês Mitterrand, cujo objetivo era por fim ao conflito dos Balcãs, que mais tarde acabaria com mais de 150 mil vidas – o Estadista gostaria de lembrar publicamente a gravidade daquela situação.

Mas, conforme observou o historiador Éric Hobsbawm (1994), em sua obra Era dos extremos: o breve século XX (1914-1991), “Um aspecto da visita de Mitterrand, contudo, embora claramente fundamental, passou despercebido: a data. Por que o Presidente da França escolhera aquele dia específico para ir a Saravejo? Porque 28 de junho era o aniversário do assassinato, em Saravejo, em 1914, do arquiduque Francisco Ferdinando” (HOBSBAWM: 1994, p. 12). Nessa obra-prima, Hobsbawm abordou o que ele chamou de “breve século”, que se iniciou com a Grande Guerra e chegou ao fim com a “Queda” do Comunismo e da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). E concluiu: “A memória histórica já não estava viva” (Ibidem, p. 13).

Ignorar o passado, ou a sua destruição, “é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que outros esquecem, tornam-se mais importantes que nunca no fim do segundo milênio” (Idem). Prova dessa destruição do passado, o novo século XX se iniciou com a segunda Guerra do Golfo, ataque norte-americano ao Iraque, em 2003, após os atentados às Torres Gêmeas, no dia 11 de setembro de 2001. Nenhuma nação do mundo se lembrava dos acordos de paz firmados logo após 1945. Hobsbawm tentou compreender o século XX, o mais bárbaro da história humana. O mundo que se definhou na década de 1980 foi o mundo pós-Revolução Russa de 1917. Defende o historiador que “fomos todos marcados por ela, por exemplo, na medida em que nos habituamos a pensar na moderna economia industrial em termos de opostos binários, ‘capitalismo’ e ‘socialismo’ como alternativas mutuamente excludentes” (Ibidem, p. 14).

O mundo que permaneceu em pé após a “Queda” da URSS foi moldado pelo lado vencedor. Os derrotados foram caracterizados como o ‘inimigo’ numa espetacularização entre “Bem” e “Mal”. “Esse é um dos preços que se paga por viver num século de guerras religiosas, que tem na intolerância sua principal característica” (Idem). O mundo tornou-se pequeno para “religiões seculares rivais” (Idem). A tarefa do historiador é compreender os fatos sociais que caracterizaram e caracterizam os séculos XX e XXI. Assim, compreender uma era de catástrofe, “a era nazista na história alemã e enquadrá-la em seu contexto histórico não é perdoar o genocídio. De toda forma, não é provável que uma pessoa que tenha vivido este século extraordinário se abstenha de julgar. O difícil é compreender” (Ibidem, p. 15).

O primeiro ministro Britânico durante a Grande Guerra Mundial, Winston Churchill, na obra Memórias da Segunda Guerra Mundial (2012), destacou os princípios éticos da civilização moderna – os de executar os líderes dos países derrotados. Relevante: sabendo que serão achincalhados e mortos é possível “prescrever as guerras futuras” (CHURCHILL: 2012, p. 710). Portanto, lutam até as últimas consequências, levando as massas da população a pagarem com as próprias vidas. Os romanos antigos, dizia Churchill, tinham clemência, um dos fatores essenciais para a conservação da República e do Império romano. Lembrava-se Churchill, em seus diálogos com o presidente Truman (EUA), ser necessário conceder aos japoneses honras militares, ao menos isso, após presenciar a tragédia na ilha de Okinawa, cena em que dezenas de milhares de soldados japoneses se suicidaram com suas granadas, todos enfileirados, Churchill sabia que não se entregariam. Os oficiais japoneses já haviam praticado o ritual do haraquiri. Mas Truman decidiu criar um impacto que forçaria os japoneses a se entregarem: os ataques com bombas atômicas sobre Nagasaki e Hiroshima – “os bebês nasceram satisfatoriamente”, dizia um dos seus comandantes do alto escalão a Churchill.

* Por Anderson Lino, Doutor em Ciências Sociais Aplicadas pela PUC-SP

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