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A revanche das paixões e a presença de Hassner

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Pierre Hassner fascina e intimida. Provoca e constrange. É um intelectual à moda antiga. Um professor. Um mestre. Um erudito. Romeno de Bucareste. Judeu de nascimento, católico por imposição. Esse senhor de 85 anos – que vem de nos deixar no último sábado, 26/05/2018 – viveu o mal nazista e o mal comunista. Sua terra natal fora invadida pelos homens de Hitler e pelos homens de Stalin. Para viver, sua família se converteria ao catolicismo e emigraria para a França. Expatriado em Paris, Hassner conheceria os escritos e depois a pessoa de Raymond Aron ainda nos anos de 1940. E com Aron iniciaria intensa interação e cooperação intelectual.

Com a morte do pai de Paix et guerres entre les nations, Hassner segue seu mais fiel e disciplinado intérprete e seguidor.

Fino e refinado observador e analista do meio internacional, Hassner é dos mais importantes e eruditos estrategistas dos dias que correm. Ombreia Kissinger, que ainda vive, e Brzezinski, que já se foi. Seu oportuno La revanche des passions – métamosphoses de la violence et crises du politique é a mostra mais contundente dessa sua condição.

Lançado no outono francês de 2016, o livro reúne diversos artigos de Hassner sobre a mutação da realidade internacional e suas consequências. Nele encontramos diálogos com os principais observadores internacionais de todos os tempos. Da filosofia à história ao establishment. De Tucidides a Maquiavel a Rousseau a Kant a Hegel a Morgenthau a Kenneth Waltz a Kissinger a François Furet. Tem-se em revista os principais temas de interesse nacional e internacional. Guerra e paz. Virtù e fortuna. Bem e mal. Força e impotência.

O núcleo do raciocínio do livro advém da convicção de Hassner na força das paixões no ordenamento da vida política nacional e internacional.

Ele evoca Hegel que sugeria que “nada de grande e importante se faz sem paixão”, Spinoza que intuía que “não se pode vencer paixões tristes e maléficas que por paixões positivas” e Raymond Aron que vaticinava “aqueles que acreditam que os povos seguirão seus interesses mais que suas paixões não entenderam nada do século XX”. Sua intuição propõe que no século 21 as paixões continuarão centrais.

Sua exposição é clara, porém exigente. Em sua periodização aparente, após a grande paixão que foi o comunismo, o liberalismo parecia ter vencido. O fim da história imperado. O mercado virado deus.

Mas veio o 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos.  O 15 de setembro de 2008 em Wall Street. O 18 de dezembro de 2009 em Copenhague. O 19 de abril de 2011 na Líbia. O 6 de janeiro de 2015 na França.

Ou seja.

A revanche dos povos. A crise financeira. O contencioso energético explícito. A crise ecológica evidente. A amplificação de riscos geoestratégicos. A agudização da violência em toda parte e por todos os meios. A despolarização do mundo – a implosão do “multilateralismo” se é que ele existiu em algum momento. A retração dos países emergentes. O fundamentalismo islâmico. A represália autocrática chinesa e russa. A fragmentação das paixões.

Malgrado os dados que indicam a diminuição da criminalidade mundo afora – Steven Pinker e seu The better angels o four nature na dianteira –, a violência e a insegurança jamais foram tão evidentes. E o mundo hodierno, constata Hassner, é dos mais perigosos de todos os tempos.

Os morticínios do 6 de janeiro e do 13 de novembro de 2015 em Paris demonstram as graves falhas de previsão e contenção nos dispositivos de segurança franceses, europeus e ocidentais. Os deveres weberianos dos estados esboroaram. Desde muito impotentes, agora viraram claramente inconsequentes à percepção de todos os cidadãos. Por conta de Daech, mas não só.

Daech luta em nome de paixões. As mesmas paixões dos cidadãos dos estados ocidentais. Mas com sinais invertidos.

Enquanto os ocidentais sugerem amar a vida, Daech elogia a morte.

Outrora o mundo liberal era superior em capacidade técnica e militar. E com isso constrangia os demais. Especialmente organizações ancestrais ao Daech.

Mas isso ficou no passado.

Ao “ganhar” a guerra fria, esse mundo liberal acreditava ter ganhado a paz. E essa paz fora alienada em paixões nacionais, étnicas, institucionais como a consolidação da União Europeia e o revigoramento das Nações Unidas. Mas também na ode à globalização, a “aldeia global”, à “comunidade internacional”.

Mas comunidade sugere níveis de solidariedade capazes de impor a congruência de paixões. Isso não ocorreu.

O mundo que nos toca viver, por isso, segue triste, perverso e instável.

Paixões sem moderação, sugere Hassner, viram organizações criminosas – Daech. Moderação sem paixão conduz à impotência – o resto; nós.

Até quando?

* Por Daniel Afonso da Silva – Historiado, SP – Frente pela Soberania (Análises Políticas, Econômicas e Sociais: Economia para Indignados, Política para Indignados, Geopolítica, Referendo, Petrobras e Pré-Sal).

 

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