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Fé e utopia social em torno de dom Sebastião – o desejado

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Era maio de 1819, na Serra do Rodeador, município de Bonito, atual Estado do Pernambuco, nesse momento aparecem três “infantes” matutos em cena. Dom Silvestre José dos Santos, o primeiro varão da família do escritor e literato Ariano Suassuna, tornou-se rei com o nome de Dom Silvestre I. Suassuna o denominou Rei do Rodeador; o seu irmão se tornou o segundo rei daquele local, denominado Dom Gonçalo José Vieira dos Santos; por fim, o trisavô de Suassuna, Dom José Maria Ferreira-Quaderna tornou-se o terceiro rei.

O castelo era uma pedra sertaneja em que se pregavam o retorno do rei português Dom Sebastião – o desejável, morto na batalha de Alcácer-Quibir, no norte da África, na guerra contra os mouros, em agosto de 1578. O reinado de Dom Silvestre I foi destruído pelas tropas do Marechal Luís Antônio Salazar Moscoso. Nas penas de Suassuna, “Incendiaram o Arraial, morrendo nas chamas mulheres e crianças, enquanto os homens que escaparam ao incêndio e à fuzilaria foram passados a fio de espada” (SUASSUNA: 2017, p. 73).

O sentido sociológico daquela destruição: o Arraial, ou “comuna” encantada, tornou-se uma ameaça no momento em que foi identificado como utópico, ao fazer da Bíblia as vozes do sertanejo. Segundo Suassuna, “No Reino, domina um catolicismo meio-maçônico e sertanejo, baseado no qual nossa família começa a assaltar gados, as terras, as fazendas, as pastagens, e os dinheiros dos proprietários ricos, para distribui-los com os súditos pobres e fiéis do Reino, juntamente com Cartas-patentes e Cartas-de-brasão” (Ibidem, p. 74).

Quanto ao sobrinho de Dom Silvestre I, que se tornou Rei do Segundo Império, filho de Dom Gonçalo José Vieira dos Santos, Antônio Vieira dos Santos – que se proclamou Rei com o nome de dom João I, no ano de 1835, migrou para o sertão do Pajeú, estabelecendo na Serra do Reino, na fronteira entre o Pernambuco e a Paraíba, que Suassuna denominou serem as “duas Províncias mais sagradas do Império do Brasil” (Ibidem, p. 75).

Fixavam-se, portanto, as fronteiras do território nacional da Pedra do Reino. Mas quem rouba a cena neste Segundo Império é o jovem João Antônio dos Santos, com duas pedrinhas em suas mãos, que dizia serem brilhantes. Com um folheto em baixo do braço, que continham as revelações acerca do desaparecimento de Dom Sebastião. O folheto também dizia que João António dos Santos deveria se casar com Maria, pois, assim, o Reino se desencantaria e Dom Sebastião retornaria.

Além de se casar com Maria, conta Suassuna, conseguiu “obter, por empréstimo, de muitos fazendeiros do lugar, bois, cavalos, dinheiro, em porção não pequena, com a onerosa condição de restituir tudo em muitos dobros, logo que se operasse o pretenso desencantamento do misterioso Reino” (Ibidem, p. 76). Nessa trama o auxiliaram o pai, os tios, primos e toda sorte de parentela que formavam uma malandragem apostólica sertaneja. Mas, nesse conflito, entrou em cena o clero do lugar, que se sentindo ameaçado pela concorrência, resolveu por fim naquela trama.

Os padres Antônio Gonçalves de Lima e Francisco José Corrêa de Albuquerque retiraram João Antônio dos Santos dos seus caminhos e interesses. Isso mostra que o “catolicismo puramente romano, ortodoxo e oficial é funesto para a sagrada Coroa do Sertão” (Ibidem, p. 78). Durante o Terceiro Império (1836-1838), surge o bisavô de Suassuna, Dom João Ferreira-Quaderna, que se casara com as duas irmãs do Rei Dom João I, Josefa e Isabel.

A poligamia no catolicismo-sertanejo da Pedra do Reino era permitida. Ferreira-Quaderna retornou ao Pajeú e assumiu o trono na Pedra do Reino como Dom João II – o Execrável. Um documento relevante surge naquela conjuntura, a carta-relatório dirigida ao Conde de Boa Vista, governador da Província do Pernambuco, escrita pelo prefeito de Flores, Francisco Babosa Nogueira Paes.

A carta-relatório acusava o Arraial de ser “socialista” e que havia práticas rituais de um fanatismo religioso no sertão. Mas há várias omissões nesse documento, pois, El-Rey Dom Sebastião retornaria na Pedra do Reino para destruir os fazendeiros e poderosos do local; o sacrifício dos cachorros estava relacionado ao retorno como dragões para lutarem contra os proprietários locais, distribuindo as terras para os pobres.

Maio de 1838 foi o dia decisivo do Arraial da Pedra do Reino. Dom João II estendeu a degola para lavar a Pedra do Reino com sangue para que se desencantasse o Rei Dom Sebastião – o Desejável. A degola geral envolvia também os poderosos proprietários rurais do sertão.

“De um jeito ou de outro, a matança foi grande, ‘e o sangue foi até a junta grossa’, como dizia o regente Dom Antônio Conselheiro, em Canudos” (Ibidem, p. 81). As duas esposas de Dom João II – o Execrável, Josefa e a Princesa Isabel, foram sacrificadas. Esta última, ao ter a cabeça separada do corpo, deu luz a uma criança que rolou pela Pedra do Reino junto com os corpos.

Pedro Antônio, irmão de Josefa e Isabel, resolveu vingá-las. Diz Suassuna que, “por ser irmão do primeiro rei, João Antônio antecipou-se em subir ao trono. Dali anunciou, em voz alta, que Dom Sebastião, cercado de sua Corte, lhe aparecera na noite antecedente e reclamava a presença do Rei João Ferreira-Quaderna, única vítima que faltava para operar-se o seu completo desencantamento” (Ibidem, p. 84).

Essa epopéia sertaneja, como defende o autor do Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do sangue do vai-e-volta, “acaba, como todo trono digno desse nome, com os campos e a Coroa banhados pelo sangue dos Reis” (Ibidem, p. 87).

 

* Por Anderson Lino é Doutor em Ciências Sociais Aplicadas pela PUC-SP

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