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A quebra dos pactos. Lula manejou com esmero a arte da conciliação

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O Brasil não é para amadores nem para iniciantes nem para iniciados. O presidente Lula da Silva sempre soube disso e sempre manejou com esmero a arte do equilíbrio e da conciliação. Não ao acaso, ele foi quem melhor traduziu essa arte em ação política na história recente do País.

Quando do dito “escândalo do Mensalão”, o equilíbrio conciliatório tendeu a esboroar. Nesse contexto, um ator antagonista indiscreto e afoito vaticinou o desejo de “acabar com a raça dessa gente” – leia-se, de Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores e de todos os seus congêneres. Diversos órgãos de imprensa participaram dessa aspiração. E não tardaram a promover a campanha pelo impeachment do presidente.

O massacre avançou inevitável. Algozes travestidos em escribas foram ficando mais e mais implacáveis e impiedosos. Alguns, mais excitados e menos concentrados, contavam favas e lentilhas para última ceia dos petistas no poder. Ares de balburdia e traição rondavam também o Planalto. Vivia-se o ano de 2005. Estava-se longe do juízo final, mas o apocalipse enviara como mensageiros os presidentes José Sarney e Fernando Henrique Cardoso com o propósito de reabilitar, moral e politicamente, os pactos.

O antecessor imediato do presidente Lula da Silva neutralizou a fúria dos derrotados nas eleições de 2002 e, com imenso senso de responsabilidade, ressaltou as consequências históricas, políticas e sociológicas de se apear do poder o único e genuíno líder do “Planeta fome” surgido no Brasil após Getúlio Vargas. O presidente José Sarney, por sua vez, deu uma de De Gaulle e considerou o presidente Lula da Silva – tal e qual o francês fizera com Sartre em outras circunstâncias – um patrimônio nacional que não deveria ser tocado.

O recado foi entendido. Os meses se passaram. Lula da Silva foi reeleito. Impedido de se reapresentar nas eleições de 2010, ele faria eleger Dilma Rousseff. O País crescia. A crise financeira de 2008 parecia realmente uma “marola” nos trópicos. A sucessão fora simples, embora trabalhosa.

Em inícios de 2011, o cidadão Luiz Inácio foi cuidar de sua saúde e retirou o Lula da Silva do convívio político-partidário nacional. Coube, portanto, à presidente Dilma Rousseff iniciar seu mandato sem seu mentor. Nessa ausência, ela começou um namoro indiscreto com a opinião publicada com a anuência de correligionários do partido. Esse affair aceleraria a corrosão dos pactos. As faxinas ministeriais foram singelos sintomas dessa operação camicase. A opinião publicada aplaudia. Cachimbadores de boca torta entravam em polvorosa por conhecer a voracidade do mostro que se ia alimentando.

Em 2012, a “marola” deu lugar ao tsunami da crise financeira. Veio 2013, as manifestações de junho e o desalento da “nova classe média”. Veio o ano seguinte, o 7 x 1 na Copa. Que esperar nas urnas em 2014?

Para frear a ascensão irresistível de Marina Silva, marqueteiros do PT aludiram ao prato vazio na mesa das famílias brasileiras modestas em caso de vitória ecologista. Aquele “prato vazio” foi a gota d’água do vale-tudo político-partidário-midiático instaurado no País. Virou evidente à população que, para ganhar uma eleição e governar, fazia-se o diabo. Diante dessa evidência, a restauração dos pactos ficou impossível e os rompimentos foram apenas consequências.

Sem pactos, sem mensageiros. Sem mensageiros, sem salvador. Sem salvador, o demônio tomou conta. A sangria segue desatada e impossível de se estancar. Queriam “acabar com a raça dessa gente” e estão conseguindo.  O fim do tormento espera um milagre.

* Por Daniel Afonso da Silva – Historiador

Crédito da foto: Ricardo Stuckert

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