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Tramas e dramas – Por Daniel Afonso da Silva, historiador

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Quando as águas de março iam fechando o verão brasileiro de 2011, nos primeiros instantes da presidência de Dilma Rousseff, o presidente Obama deu de vir ao Brasil; e, desde o Rio de Janeiro, anunciou a participação dos Estados Unidos na coalizão internacional contra o coronel Gaddafi que prometia “lavar as ruas da Líbia com o sangue dos ratos”, entendidos como os dissidentes ao seu regime.

À frente dessa coalizão ia a França do presidente Sarkozy e o Reino Unido do primeiro-ministro Cameron. Logo ingressou os Estados Unidos e Alemanha. Rússia e China se abstiveram. Brasil também. Mas o conjunto majoritário do meio internacional deu suporte.

Meses depois, o coronel e seu regime seriam eliminados mediante utilização de “todos os meios necessários”. A presidente brasileira sairia em protesto contra essa ofensiva anunciando a “responsabilidade ao proteger”. O presidente norte-americano seguia demasiado refestelado pelo fim de Osama Bin Laden que a morte de Gaddafi ficou em segundo plano. O presidente francês e o primeiro-ministro inglês pareciam aliviados. A deposição do mandatário líbio figurava, para eles, como o farol democrático para a rua árabe.

No ano seguinte, o faustoso crescimento econômico dos países emergentes imantados em curvas favoráveis de demanda e oferta de commodities começou a fraquejar, a marolinha passou, o tempo feio se instalou e a crise financeira mundial chegou ao Brasil. Instalada na Europa desde 2008 e traduzida em crise do euro, essa moléstia do subprime impediu a reeleição de todos os mandatários da região – exceto da chanceler Merkel. O presidente Sarkozy daria lugar ao representante socialista François Hollande.

2013-2016 foi o momento de todas as crises. Noites de junho no Brasil. Ebola na África. Fluxo e refluxo de imigrantes e refugiados. Bancarrota italiana. Nova crise na Grécia. Avanço dos eurocéticos na negação da União Europeia. O retorno das crises financeiras e sua mutação em fragilidade econômica, política e social em toda parte.

Como decorrência, a ascensão de populismos de direita e esquerda na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil.

No primeiro, notadamente, o Brexit e Marine Le Pen. No segundo, Donald J. Trump. Por aqui, o moralismo irresponsável do deputado Eduardo Cunha revestido da inconsequência do senador Aécio Neves e somado à impetuosidade da classe política que levaria o Sr. Michel Temer ao poder com a defenestração da presidente eleita Dilma Rousseff – a presença hodierna altaneira do deputado-presidenciável Jair Bolsonaro representa simples e singelo detalhe dessa trama.

2017-2018 a confusão começa a chegar ao zênite. O presidente Obama sai de cena. Junto com ele, vão os democratas. A popularidade/credibilidade de Michel Temer chega ao rés-do-chão – e, mesmo assim, ele alardeia sua candidatura ao Planalto no pleito de 2018. David Cameron vira persona non grata entre os ingleses – mais, muito mais, que seu antecessor Tony Blair que, mancomunado com George W. Bush, investira o Reino Unido na “guerra ao terror”, e mesmo após o escândalo do Facebook. E o presidente Sarkozy – após François Hollande e agora Emmanuel Macron – retorna à esfera pública para se defender dos fantasmas de Gaddafi. Nas últimas semanas, vem emergindo reforçada a suspeita de Gaddafi ter financiado a sua campanha presidencial vitoriosa 2007 na França. Uma suspeita consequente enquanto suspeita, mas temerária na amplitude de suas consequências.

Caso tenham sentido e razão, as denúncias contra o presidente Sarkozy induzem à impressão de que o mandatário da Líbia fora duplamente assassinado. Primeiro politicamente para por fim ao seu regime. Segundo como queima de arquivo.

Em se comprovado, chega-se ao impensável de o presidente francês ter ludibriado o mundo inteiro para lançar a intervenção na Líbia. Tramas assim parecem pouco verossímeis mesmo em filmes. Os dias dirão, entretanto, se verdadeiras na vida internacional real.

* Por Daniel Afonso da Silva – Historiado, SP – Frente pela Soberania (Análises Políticas, Econômicas e Sociais: Economia para Indignados, Política para Indignados, Geopolítica, Referendo, Petrobras e Pré-Sal).

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